Os 6 estágios do Choque Cultural
Liza Roriz 22/10/2012

In China

Sempre me achei uma pessoa aberta, daquelas que gostam de conhecer novos lugares e pessoas, experimentar comidas diferentes e até aprender uma nova língua. Acreditava que fazer intercâmbio era uma ótima pedida para qualquer um, independente do destino. Quantas pessoas vocês conhecem que foram para a Europa ou Estados Unidos e voltaram falando que foi uma péssima experiência? Então!

Brincadeiras e ignorância a parte, o mundo é realmente bem maior que o Ocidente. Grande parte dos brasileiros, criados num país colonizado por europeus, imersos no “American way of life”, consumistas e capitalistas, tendem a acreditar que, com a globalização, todo o mundo é assim também.

Percebi que as coisas são diferentes há pouco tempo. Em julho de 2011, após quase dois anos sem tirar férias no trabalho e recém formada na faculdade, resolvi ir para a China. Honestamente, apostava em algo estilo “comer, rezar e amar”. Adoro China in Box e tenho simpatia pelo Budismo, motivos que me bastaram no momento. Outras razões eram a curiosidade de conhecer o país mais populoso do planeta, com cultura milenar e respeitável crescimento econômico.

Bom, lá fui eu passar um mês em Beijing, atual capital chinesa e antiga capital do Império Chinês, uma das cidades mais populosas do mundo, sede dos Jogos Olímpicos de 2008, além de centro político, cultural, educacional e militar da China. Quando me perguntaram se eu gostei, precisei de algum tempo para explicar, talvez através de um paralelo entre “Expectativa x Realidade”.

A expectativa se resume em conhecer um pouco sobre a sabedoria chinesa, buscar evoluir espiritualmente, ficar mais sábia, tranquila, buscar inteligência emocional, descobrir de onde saem os famosos provérbios chineses.

A realidade que vivi foi estar em uma cidade que é considerada uma das mais poluídas do mundo, tendo a Organização Mundial de Saúde publicado em 2008 que, respirar durante o dia em Beijing equivalia a fumar 70 cigarros. Além disso, o trânsito é tão ruim quanto o de São Paulo, os chineses são estressados, ninguém fala inglês e principalmente, na China meus caros, têm MUITA gente. Pode parecer óbvio, mas quem pensa que irá se impressionar com a Grande Muralha da China no trecho de Badaling ou na visita a Cidade Proibida, se impressiona muito mais com a quantidade de chineses no local. Sendo assim, se você quer ir para a China com as mesmas expectativas que eu, vá para o Tibet ou se interne num mosteiro.

Bom, além de ser um lugar com muita gente, a China ganha em muitos outros quesitos quando se trata de exagero. Além de muito trânsito e muita poluição, tudo é muito barato, principalmente quando essa palavra é associada a muita barganha. O índice Big Mac na China é um dos menores no mundo. Além disso, há muita falsificação de produtos e variedade de meios de transporte.

Desculpe se estou sendo muito crítica, mas a China também tem muitas qualidades. Beijing por exemplo não é melhor, nem pior que uma cidade no Brasil, apenas completamente diferente. E é bem interessante estar num lugar tão longe de casa e tão distinto da sua realidade. Sendo assim, criei a minha própria teoria de que tudo não passa de fases do choque cultural.

Fases do Choque Cultural

  1. Euforia: essa é a primeira fase, e tem início antes da viagem em si. Ela começa no momento do fechamento da passagem aérea, quando você pensa: “não tem mais volta, agora eu vou!” e é tomado por um friozinho gostoso na barriga.
  2. Negação: quando você chega ao destino e percebe todas as diferencas políticas, econômicas, sociais e culturais, o primeiro pensamento é “isso não pode estar acontecendo.” Esse estágio é marcado pelo choque inicial e o primeiro impulso é criticar tudo o que é diferente. No meu caso, a comida chinesa foi o meu maior alvo. Lá, eles comem tudo o que se movimenta: o famoso pato de Beijing, cachorro, escorpião, gafanhoto, cavalo marinho e até a coitada da estrela do mar. Tudo fritado em muito óleo. Para alguém com o meu paladar, nem o famoso yakissoba era tragável.
  3. Raiva: você percebe que ainda falta um mês para ir embora e só quer encontrar alguém em quem por a culpa. “O que você tinha na cabeça?” e “Por que a sua mãe mega protetora não proibiu essa viagem?” são frases comuns nesse estágio.
  4. Negociação: nessa fase você já fez vários amigos que ajudam a tornar a viagem muito mais legal. O seu pensamento então passa a ser: “se eu ficar até o final vai ser ótimo para o meu currículo”.
  5. Admiração: você começa a entender, respeitar, aprender e apreciar a cultura local. Ela se torna uma espécie de irmã mais velha: só você pode falar mal. Esta é a fase mais proveitosa, obviamente, em que você tem várias experiências, boas e ruins, que te tornam uma pessoa melhor.
  6. Saudade: esse estágio tem início ainda no último dia de viagem. Você está lá mas já sente saudades, e bate um pequeno arrependimento de não ter aproveitado tanto aquela primeira semana (composta pelas fases 1, 2, 3 e 4). Porém, isso não importa mais. Essa fase será sentida para sempre através de fotos, histórias, lembranças e conversas entre as amizades construídas no desenrolar de toda essa grandiosa experiência.

 “Tudo vale a pena quando a alma não é pequena”

Liza Roriz

4 Comments

  1. Liza, adoreei seu post, me identifiquei em alguns pontos!! Começando pela parte que na minha viagem pra China, NÃO comi comida chinesa!!
    Mas por onde eu passei, não tive um choque muito grande não, só na questão de que ninguém fala ingles, e que as pessoas são muito diferente de nós, muito estranhas!
    Beijo!! Estou adorando o blog!!

  2. estou completamente apaixonada pelo seu blog,eu ainda sou bem nova mas meu sonho é viajar para vários países e conhecer novas culturas,principalmente fazer trabalhos voluntários na África.
    Amei todos os artigos! <3

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