Viagem na língua portuguesa
Liza Roriz 11/10/2012

Entre frases, poemas e trechos de livros, selecionei os meus dez favoritos sobre viagens para servir de inspiração. Espero que gostem!

1. Vou-me Embora pra Pasárgada (Manuel Bandeira)

Vou-me embora pra Pasárgada
Lá sou amigo do rei
Lá tenho a mulher que eu quero
Na cama que escolherei

Vou-me embora pra Pasárgada

Vou-me embora pra Pasárgada
Aqui eu não sou feliz
Lá a existência é uma aventura
De tal modo inconseqüente
Que Joana a Louca de Espanha
Rainha e falsa demente
Vem a ser contraparente
Da nora que nunca tive

E como farei ginástica
Andarei de bicicleta
Montarei em burro brabo
Subirei no pau-de-sebo
Tomarei banhos de mar!
E quando estiver cansado
Deito na beira do rio
Mando chamar a mãe-d’água
Pra me contar as histórias
Que no tempo de eu menino
Rosa vinha me contar
Vou-me embora pra Pasárgada

Em Pasárgada tem tudo
É outra civilização
Tem um processo seguro
De impedir a concepção
Tem telefone automático
Tem alcalóide à vontade
Tem prostitutas bonitas
Para a gente namorar

E quando eu estiver mais triste
Mas triste de não ter jeito
Quando de noite me der
Vontade de me matar
— Lá sou amigo do rei —
Terei a mulher que eu quero
Na cama que escolherei
Vou-me embora pra Pasárgada

Este poema, sem dúvida, é o meu preferido! De vez em quando, quando dá aquela vontade de dar uma escapadinha em meio a correria do dia a dia, dou risada ao lembrar desse texto e digo “vou-me embora para Pasárgada” (quem nunca?).

Para quem não conhece, segue abaixo a explicação do próprio Bandeira sobre o poema, bem interessante!

“Vou-me embora pra Pasárgada” foi o poema de mais longa gestação em toda minha obra. Vi pela primeira vez esse nome de Pasárgada quando tinha os meus dezesseis anos e foi num autor grego. […] Esse nome de Pasárgada, que significa “campo dos persas”, suscitou na minha imaginação uma paisagem fabulosa, um país de delícias […]. Mais de vinte anos depois, quando eu morava só na minha casa da Rua do Curvelo, num momento de fundo desânimo, da mais aguda doença, saltou-me de súbito do subconsciente esse grito estapafúrdio: “Vou-me embora pra Pasárgada!”. Senti na redondilha a primeira célula de um poema […].

2. “Um homem precisa viajar. Por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros ou TV. Precisa viajar por si, com seus olhos e pés, para entender o que é seu. Para um dia plantar as suas próprias árvores e dar-lhes valor. Conhecer o frio para desfrutar o calor. E o oposto. Sentir a distância e o desabrigo para estar bem sob o próprio teto.

Um homem precisa viajar para lugares que não conhece para quebrar essa arrogância que nos faz ver o mundo como o imaginamos, e não simplesmente como é ou pode ser. Que nos faz professores e doutores do que não vimos, quando deveríamos ser alunos, e simplesmente ir ver. O mar não é um obstáculo: é um caminho. Um dia é preciso parar de sonhar e, de algum modo, partir.

Passados dois meses de tantas histórias, comecei a pensar no sentido da solidão. Um estado interior que não depende da distância… nem do isolamento; um vazio que invade as pessoas… e que a simples companhia ou presença humana não pode preencher. Solidão foi a única coisa que eu não senti, depois que parti… nunca… em momento algum. Estava, sim, atacado de uma voraz saudade. De tudo e de todos, de coisas e de pessoas que há muito tempo não via. Mas a saudade às vezes faz bem ao coração. Valoriza os sentimentos, acende as esperanças e apaga as distâncias. Quem tem um amigo, mesmo que um só, não importa onde se encontre, jamais sofrerá de solidão; poderá morrer de saudade… mas não estará só!

Um homem precisa viajar, por sua conta, não por meio de histórias, imagens, livros e tevês, precisa viajar, por si, com os olhos e pés, para entender o que é seu…

Descobri como é bom chegar quando se tem paciência. E para se chegar, onde quer que seja, aprendi que não é preciso dominar a força, mas a razão. É preciso, antes de mais nada, querer”. (Amyr Klink – Mar sem fim)

3. “Já ancorado na Antártica, ouvi ruídos que pareciam de fritura. Pensei: Será que até aqui existem chineses fritando pastéis? Eram cristais de água doce congelada que faziam aquele som quando entravam em contato com a água salgada. O efeito visual era belíssimo. Pensei em fotografar e gravar, mas falei pra mim mesmo – Calma você terá muito tempo para isso… Nos 637 dias que seguiram o fenômeno não se repetiu”. (Amyr Klink).

4. “Podemos viajar por todo o mundo em busca do que é belo, mas se já não o trouxermos conosco, nunca o encontraremos”. (Ralph Emerson)

5. “Uma viagem de mil milhas começa com um único passo”. (Lao-Tse)

6. “A verdadeira viagem da descoberta consiste não em buscar novas paisagens, mas em ter olhos novos”. (Marcel Proust)

7. “Porque metade de mim é partida, mas a outra metade é saudade”. (Oswaldo Montenegro)

8. “Viajar é mudar o cenário da solidão”. (Mario Quintana)

9. A verdadeira arte de viajar (Mario Quintana)

“A gente sempre deve sair à rua como quem foge de casa, como se estivessem abertos diante de nós todos os caminhos do mundo. Não importa que os compromissos, as obrigações, estejam ali… Chegamos de muito longe, de alma aberta e o coração cantando!”

10. “Os homens se dividem em duas espécies: os que têm medo de viajar de avião e os que fingem que não têm”. (Fernando Sabino)

Liza Roriz

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